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Mesas redondas

                  

Centralidade da periferia e formação socioespacial: nação ativa e nação passiva

 

 

A inserção da América Latina na divisão internacional do trabalho ainda carrega traços de dependência financeira e tecnológica. Essa é uma realidade persistente nos países do Sul do mundo, evidenciando que o processo de desenvolvimento geograficamente desigual é renovado e aprofundado diante das tendências homogeneizadoras do capitalismo informacional. Na pandemia, a desigualdade imperante no acesso aos serviços de saúde e na distribuição de vacinas contra a Covid19 no mundo, bem como o quadro de recessão e endividamento que muitos países atravessam, escancaram a perversidade da globalização. Todavia, a tomada de consciência desta situação estrutural contribui para a emergência, dentro de cada formação socioespacial, de novas contradições e pode levar a uma revisão dos pactos territoriais vigentes em direção a uma outra globalização.  O pensamento hegemônico postula que a nação ativa seria aquela que segue os desígnios da acumulação e das finanças, e o restante, desse ponto de vista, seria a nação passiva. Mas, não seria o contrário, isto é, não seria a verdadeira nação ativa aquela formada pela maior parte da população? Não seria a nação, portanto, dotada de uma energia própria, autêntica, fundada em sua própria existência e cujas manifestações de resistência e relações horizontais apontam para caminhos de emancipação e soberania? Pensar na centralidade da periferia como novo fator dinâmico da história continua a ser um desafio para afrontar no século XXI.      

      

Globalização perversa, urbanização corporativa e pobreza estrutural na cidade e no campo

Malgrado as possibilidades que oferecem para a construção de um mundo novo, as atuais condições técnicas do planeta estão ao serviço de uma ordem global perversa. Instalada como motor da civilização, a competitividade marca o compasso da evolução social e econômica nos territórios nacionais, com o aumento da apropriação seletiva dos excedentes, as modernizações excludentes, o totalitarismo das finanças e da informação que, entre outras tendências, configuram uma divisão do trabalho hegemônica, caracterizada pelos altos graus de capitalização e fluidez e pela produção de dívidas sociais. Os processos de urbanização contemporânea decorrem dessa nova divisão do trabalho que, no campo, substitui o trabalho pelo capital e, nas cidades, revela o uso privado dos meios coletivos, sempre renovados com dinheiro público. A cidade, sobretudo, a grande cidade é o reino dessa urbanização corporativa e da economia capitalizada mas, ao mesmo tempo, é a arena de uma economia popular, nascida ao abrigo de um extenso meio construído e da possibilidade de produzir e consumir com baixos graus de capital, assim como também acontece com os pequenos produtores rurais. Desse modo, cidades e campo revelam as feições particulares da pobreza estrutural globalizada e a respectiva luta pelo direito ao território como lugar de uma existência mais justa.

                  

Violência da informação e instabilidade dos territórios: redes técnicas e políticas

Vivemos um período histórico em que a importância da informação se tornou mais aguda em praticamente todos os domínios da vida social, assim como na definição dos usos do território. A consolidação da informação como uma condição de poder político, econômico e simbólico criou uma nova divisão do trabalho, fazendo surgir ramos da economia, firmas e profissões, todas diretamente ligadas aos processos de digitalização das empresas e da vida cotidiana. Este capital informacional cada vez mais concentrado guarda relação direta com a precarização do trabalho, com as ameaças à soberania, com a privatização dos bancos de dados públicos e com a produção de um novo tipo de psicosfera mais alienante, tornando difícil a regulação dos elementos que compõem este novo universo (como são os fluxos financeiros digitalizados, as redes sociais e seus algoritmos, as chamadas “fake news”, entre outros processos). Todavia, concomitantemente a esta avassaladora concentração da produção e circulação das informações, é possível identificar outras formas de racionalidade que emergem da própria violência impetrada pelo uso despótico desta informação hegemônica de caráter descendente. Movimentos sociais, coletivos nas periferias das grandes cidades e grupos de reivindicação política subalternizados, dentre outras manifestações, produzem informações de caráter ascendente, mais horizontalizadas, apontando para possibilidades concretas de outros usos desta nova tecnosfera a favor da sociedade como um todo.

                  

Direito ao território: políticas públicas entre a desconstrução e a resistência em tempos de pandemia

Em 1987, Milton Santos no livro “O espaço do cidadão” já falava em “neoliberalismo e cidadania atrofiada”, do modelo cívico vigente no Brasil que não lograva dar conta do imenso contingente de pobres e da ascensão do consumidor mais que perfeito como centro de políticas que somente aprofundavam a crise social. Passados 30 anos, assistimos o acirramento desse contexto, apesar dos esforços realizados após a promulgação da Constituição de 1988, sobretudo com o desmantelamento recente de políticas públicas fundamentais, como é o caso do Sistema Único de Saúde, ou aquelas vinculadas a educação, habitação popular, acesso à cultura, saneamento básico, entre outras. Em tempos de pandemia esta situação se agrava ainda mais por causa da desaceleração da economia, que resulta numa drástica contração do emprego e da renda, ampliando as desigualdades preexistentes. Como enfrentar este novo momento? A possibilidade de cidadania plena das pessoas depende de soluções pensadas a partir dos lugares, desde que concebidos em conjunto, dentro do corpo da federação. A ideia de história, sentido, destino não pode ser aviltada em nome da obtenção de metas estatísticas ou eleitoreiras. A consciência coletiva dos direitos e as resistências à ordem imposta, bem como a busca por outras formas de gestão e planejamento, são um caminho necessário para um projeto territorial mais igualitário e soberano.

                  

O chão contra o cifrão: o território como limite à ação cega das finanças

É mister problematizar o enorme poder que as finanças possuem no capitalismo contemporâneo para definir processos na escala global, na escala dos territórios nacionais e no cotidiano das populações em seus lugares de vida. A predominância da racionalidade financeira na ação dos agentes econômicos ganha força na década de 1970, quando se inicia um acelerado processo de desregulamentação da economia mundial, de ascensão de governos com forte viés neoliberal, e de aumento do endividamento e da dependência de países periféricos. Esta combinação é uma das causas da enorme fluidez do dinheiro global que diminui a soberania de Estados e impõe uma lógica despótica, rentista e excludente a praticamente todas as dimensões da vida social. Estas transformações se dão porque concomitantemente se difunde – de forma seletiva e hierárquica – um meio técnico-científico informacional que permite uma unicidade técnica, temporal e funcional do planeta, consolidando uma busca desenfreada de riqueza financeira por parte de oligopólios globalizados. Em tempos de pandemia, os mercados ficam ainda mais voláteis, causando instabilidade nas bolsas e nos preços dos ativos, que por sua vez fomentam a especulação e a concentração dos excedentes financeiros disponíveis. A insustentabilidade estrutural deste arranjo leva, por sua vez, ao surgimento de formas de entendimento, de atuação política e de usos do território alternativos, baseados em racionalidades financeiras e econômicas não-instrumentais e contra-hegemônicas, que podem ser sinais do ocaso da atual tirania do dinheiro.

                  

Cidadanias mutiladas e território usado: a força do lugar no período popular da história

Arena de oposição entre Estado e mercado, o território usado expõe as contradições e distorções do modelo cívico brasileiro herdado da escravidão. Atualizadas pelo modelo de economia fundado no capitalismo neoliberal, contrapõem “os que não querem ser cidadãos” – as classes opulentas – aos “que não podem ser cidadãos”, começando pelos “negros que não são cidadãos”. Daí extensa lista das cidadanias mutiladas: no trabalho, na remuneração, nas oportunidades de promoção, na localização da moradia, na circulação, na educação, na saúde, no livre exercício da individualidade, entre outras dimensões de não-cidadania. Direitos e privilégios são binômios que conflituam no uso do território e na escolha de projetos de país. O território usado também é “uma configuração espessa de mediações entre os sistemas técnico e de ação”. Ele concretiza o agir político entre os usos econômicos e os sociais dos recursos, entre as ideologias do crescimento e da globalização e as formas de resistência a partir da criatividade e do saber local, elementos da política elaborada de baixo para cima. Constituída no cotidiano vivido por todos, a força do lugar expressa corporeidades redescobertas em contraste à fluidez e vertigem da aceleração contemporânea. É chave analítica para se desvendar a resistência do homem lento e da cultura ordinária, fundamentos do período popular da história no tempo presente.

 

 
 
 
 
 
 
 

Em breve, mais informações.

 

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